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21/07/16 09:29

INDÚSTRIA

Fernado Pimentel, da ABIT, aborda o mercado de moda e suas dificuldades

Fernado Pimentel, da ABIT, aborda o mercado de moda e suas dificuldadesAbordamos anteriormente a opinião de Edmundo Lima, da ABVTEX sobre as principais dificuldades para o crescimento da indústria brasileira. Aqui em depoimento à LINC, Fernando Pimentel, diretor superintendente da ABIT fala sobre assuntos como o dólar, competição, parcerias, qualidade e expectativas de futuro, entre outros itens. Veja a seguir.

A valorização do dólar

“A valorização do dólar, que inclusive já se depreciou nos últimos dias, trouxe sim, num primeiro momento, uma nova dinâmica na questão importar ou comprar localmente. Nos últimos dez anos, todo o movimento do grande varejo foi no sentido de ampliar a sua participação de compras e atendimento das suas necessidades no exterior. No grande varejo, a porcentagem de produtos importados chegou a 25% na média .Um número bastante impactante para a indústria.

Esse movimento foi incentivado por uma apreciação da moeda e por uma fabricação asiática que muitas vezes se dá em condições absolutamente díspares daquelas que nós temos no Brasil, em termos sociais, trabalhistas, previdenciários e ambientais. Existe um dumping intrínseco em uma série de países asiáticos que não pode ser tolerado aqui dentro.

Os fabricantes brasileiros não disputam o mercado apenas com os fabricantes de outros países, disputam tanto com os fabricantes quanto com os governos de outros países, que fazem vista grossa para uma série de políticas necessárias de compliance dentro dos seus territórios. Ao mesmo tempo, o crescimento do consumo interno, que se deu mais evidentemente entre 2005 e 2013, colaborou com este processo, o que foi positivo para a economia, porém, esta evolução foi capturada pelas importações.

Com a desvalorização recente do Real, notamos uma reversão desse movimento, com maior procura de substituições de produtos importados por aqueles fabricados no Brasil, o que mostra que com um nível adequado de taxa de câmbio, além de um necessário alinhamento de outros fatores sistêmicos de competitividade, nossa indústria é plenamente capaz de atender a demanda e, com segurança e previsibilidade, continuar investindo para seguir atendendo consumidores cada vez mais exigentes com produtos de qualidade e preços justos”.

Competição

“De 2003 até 2015 a importação de vestuário cresceu 23 vezes no país, alcançando um patamar geral da ordem de 15% do consumo, sendo que em determinadas categorias de produtos, a participação de produtos importados é muito maior chegando a 60% ou 80%. Esse foi um período de forte e desequilibrada concorrência para a indústria brasileira de uma forma geral e, evidentemente, para a indústria têxtil e de confecção, em particular.

Nenhum setor industrial da economia brasileira enfrenta há mais tempo a competição internacional do que a indústria têxtil e de confecção. Isso vem desde a abertura ocorrida no governo Collor, necessária, mas realizada de uma forma não planejada. O setor enfrenta competição com países dos mais diversos níveis de desenvolvimento. Tanto de países de altíssimo nível, como os EUA, que é um dos maiores ofertadores de artigos têxteis do mundo, como países de menor nível de desenvolvimento e baixo nível de compliance e de sustentabilidade.”

Parcerias

“Quando você vai abandonando fornecedores, essas empresas acabam tendo que buscar alternativas para sobreviver, tem que encontrar outras maneiras de continuar no negócio. Seja fabricando outros tipos de produtos, seja buscando outros canais de distribuição ou abrindo seus próprios meios de chegar diretamente aos consumidores. A importação foi um movimento permanente do varejo nos últimos anos. A indústria não tem nada contra a importação. Acreditamos que faz parte do mundo dos negócios. Mas tenho questionamentos sobre a forma como este movimento se deu. Houve repentina mudança do quadro político, impactando fortemente a economia. Ao voltarem para o mercado nacional, em busca de um fornecimento que foi abandonado ao longo do tempo, é preciso que o varejo considere um período de ajuste.

A questão que se coloca é: o varejo está voltando para ficar ou voltando temporariamente em função da preocupação com a conjuntura do dólar e do câmbio? Está voltando para construir uma relação mais duradoura? Ou está voltando para uma relação de curto prazo enquanto as condições macroeconômicas estão muito incertas? É claro que nesta conjuntura, o fornecedor fica ressabiado. “

O fornecedor

“A indústria nacional ainda é majoritária na produção e fabricação de artigos de vestuário neste país. Mas o retorno de algumas redes que se especializaram muito mais em oferecer produtos importados do que produtos locais, gerou uma certa pressão no mercado. Não adianta imaginar que o produtor nacional poderá ter as mesmas condições da Ásia, que não tem um conjunto enorme de compliance como nós temos dentro do Brasil. O Brasil tem uma estrutura produtiva para confecção muito fragmentada, fruto de um sistema tributário e trabalhista pouco amigável, e eu não estou falando aqui de precarização do trabalho e nem do não pagamento de impostos. Estou dizendo que é uma situação de muita imprevisibilidade, burocracia e complexidade que trazem custos altíssimos, sem que estes representem necessariamente benefícios aos trabalhadores ou competitividade para a empresa. É o emprego de uma quantia importante de recursos que não tem retorno em benefícios, produtividade ou eficiência.

Então, é preciso que esse novo momento da economia se traduza numa perspectiva de que existe uma visão de futuro. Não é possível conviver e ser competitivo com o chamado tripé do mal: câmbio apreciado, carga tributária elevadíssima e juros extorsivos. E ainda ter que pagar o custo de uma infraestrutura ineficiente, o custo da burocracia e o custo da imprevisibilidade. Não é à toa que o Brasil está vivendo momentos dramáticos.”

Qualidade

“Uma indústria que está entre as cinco maiores do planeta e que, mesmo acossada pela maior concorrência mundial dentro do próprio território do que qualquer outro setor industrial, se mantém competitiva, obviamente não é uma indústria de incompetentes. Se esta indústria tem qualidade para exportar, é lógico que tem qualidade para atender as demandas do varejo local. Uma indústria, porém, só vai investir na medida em que o seu cliente esteja com ele e queira crescer junto “.

Tecnologia e investimento

“Estamos vivendo um mundo de muitas transformações e a tecnologia vai ser o fio condutor disso. Novas tecnologias estão chegando, uma série de avanços estão acontecendo e a indústria tem que estar preparada para caminhar nesta direção. Mas o investimento ocorre quando há razoável segurança na perspectiva de retorno. Quando isso não acontece, o investimento torna-se defensivo, o que se traduz em mera atualização de equipamentos ou outra opção que não represente risco demasiado. Então, o país tem que voltar a crescer preservando a competitividade das suas indústrias.

Quando eu falo isso, não é preservando com subsídios, mas também não pode ter uma das taxas de juros mais altas do mundo, uma legislação trabalhista defasada com relação ao século 21, uma carga tributária elevada e extremamente complexa para ser cumprida, com uma infraestrutura muito mais cara em função da sua deficiência, uma segurança insuficiente que exige escolta para as cargas, uma internet cara e de baixa qualidade, sendo que ela é fundamental para a tecnologia funcionar bem.”

Expectativas

“Estamos fazendo diversos deveres de casa, projetos que vão ao encontro de uma indústria competitiva, não só para atender ao mercado interno, mas para atender ao mercado mundial. As exportações estão crescendo e a substituição de importações está acontecendo. Imaginamos que por conta disso se abra neste ano de 2016 um espaço para a indústria nacional acrescentar a sua produção cerca de 300/ 350 milhões de peças de todos os tipos. Por outro lado, não podemos deixar de considerar que o varejo caiu até abril, 12%.

Nossa expectativa é que, no segundo semestre, se nada de pior acontecer, encontremos um piso na queda, ainda que em um patamar muito baixo. Em relação ao varejo, a expectativa é que haja reciprocidade quanto as exigências e requisitos para selos de qualidade que o varejo impõe à indústria. De que forma? Não havendo cancelamento de pedidos, não havendo adiamento de entregas, não havendo pedidos de descontos que não foram tratados anteriormente, não havendo pressão ao fornecedor por verbas de marketing ou de gôndolas que prejudiquem a rentabilidade do próprio fornecedor. Ou seja, a mesma conformidade que o varejo quer da indústria, deve ser oferecida em contrapartida pelo varejo.

Claro que sempre existirá a disputa comercial. É normal que haja questões de prazo e de preço mas, mais do que nunca, é preciso que a percepção seja de confiança. De alguns varejistas estamos sentindo esforços neste sentido, mas do conjunto da obra, não. Já voltamos a ouvir que, com este câmbio, volta a ser interessante importar. Como disse, importar faz parte da vida econômica. Mas os grandes varejistas , principalmente , têm que ter um compromisso maior com sua cadeia de suprimentos. Então, é fundamental construir uma relação positiva.”

Fonte | Assinatura: LECTRA INFORMATION & CASES | FOTOS: REPRODUÇÃO

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